O Caminho Sinuoso Longe dos Combustíveis Fósseis

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O futuro é elétrico? O Reino Unido anunciou recentemente a intenção de cessar a venda de carros movidos a combustíveis fósseis em toda a região até o ano 2040. A medida segue países como Noruega e França, mas traz à tona a realidade de países como o Brasil, que vai na contramão das metas ambientais.

O Reino Unido espera atingir a meta de melhorar a qualidade do ar, depois de ter recebido uma advertência da União Europeia, juntamente com França e Alemanha, pela poluição. A Lei de Mudanças Climáticas de 2008 exige uma redução de 80% nas emissões de gases de efeito estufa (GEE) até 2050 (a partir dos níveis de 1990).

O anúncio, feito no final de julho pelo Secretário do Meio Ambiente, Michael Gove, abrange também os veículos híbridos, movidos a um motor elétrico combinado a um de combustão. A meta é de que, com o fim das vendas de carros a motor de alta combustão, a redução das emissões chegue a mais de 1 bilhão de toneladas por ano em todo o mundo até 2050. Também em julho, a Volvo anunciou que a partir de 2019 só vai produzir carros puramente elétricos ou híbridos.

Países como Inglaterra, Japão, Alemanha e Estados Unidos são grandes consumidores e produtores de veículos e formadores de tendências. A expectativa é de que, uma vez que a transição para transporte eletrificado e de baixa emissão aconteça nesses países, outros governos comecem a aderir à causa.

Enquanto o Reino Unido e outros países europeus caminham na direção da redução de emissões, no Brasil o cenário é o oposto. Movido principalmente a interesses financeiros, o diesel está sendo considerado até para veículos leves. Para Tasso Azevedo, coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estuda (SEEG), o país tem o potencial para fazer a transição, mas tem se concentrado em promover os biocombustíveis, negligenciando a revolução dos veículos elétricos.

“Por exemplo, as discussões do novo regime automotivo do Brasil em gestação em Brasília simplesmente ignoram os veículos elétricos. O Brasil não vai liderar esta agenda se depender das lideranças atuais, mas será fatalmente levado a este caminho se não quiser perder a capacidade de exportação”, acredita.

Seja por causa das empresas privadas ou do próprio governo, esse cenário vai permanecer no futuro próximo. As grandes empresas de ônibus não querem fazer a migração devido à falta de mercado para veículos elétricos no Brasil, o que traria enormes dificuldades na venda dos ônibus sucateados. Enquanto o governo, como dono da empresa que vende combustíveis no país, não demonstra em interesse em abrir a concorrência.

 

DADOS

Hoje, a queima de combustíveis fósseis representa dois terços das emissões globais de Gases de Efeito Estufa (GEE), do qual o transporte representa 20% destas emissões. O Brasil é o sétimo maior emissor global, tendo o transporte como responsável por 10% desses gases. Zerar as emissões do setor em todo o mundo é, portanto, meta para evitar que o aumento da temperatura global se estabilize abaixo de 2°C.

Segundo os últimos dados disponíveis do Departamento de Negócios, Energia e Estratégia Industrial do Reino Unido, em 2015, o transporte foi responsável por 24% das emissões de GEE, quase que totalmente através de emissões de dióxido de carbono. A principal fonte de emissões deste setor é o uso de gasolina e diesel no transporte rodoviário.

O dióxido de carbono sempre foi o principal gás de efeito estufa emitido no Reino Unido. As emissões de CO2 reduziram consideravelmente desde 1990 (principalmente devido à diminuição das emissões das centrais elétricas e à combustão residencial / industrial).

Enquanto no Reino Unido, o transporte rodoviário é a fonte mais importante de emissões do setor, especialmente automóveis de passageiros, no Brasil, é o transporte de cargas que mais preocupa, já que o uso do álcool como combustível ameniza a emissão dos gases.

É importante esclarecer que poluição do ar e emissão de gases para a atmosfera são coisas distintas. Hoje, as medidas de poluição são feitas através de ferramentas baseadas em satélites, que mostram que os maiores índices estão na África e na Ásia, enquanto são os países desenvolvidos os que mais emitem GEE.

O médico e pesquisador acadêmico Paulo Saldiva explica que quanto menor a tecnologia, mais poluentes ficam no ar local. “Uma pessoa em Nova York, por exemplo, emite em média, cerca de seis vezes mais GEE do que um paulistano, mas por contar com um sistema de mobilidade mais eficiente, o que fica de efeito local é menor (fumaça que sai do ônibus, por exemplo).”

Ele acredita que se cada um tomasse uma atitude – deixar o carro em casa, ficar no escuro à noite, tomar banho de caneca a cada dois dias, não comer mais carne vermelha – em 80 anos, começariam a cair os GEE. “A mesma coisa que emite GEE de natureza global, também produz em maior ou menor grau, danos locais, que podem ser convertidos em duas moedas: números de vida perdidas ou anos de vida produtiva perdidos”, explica.

 

SAÚDE

Além do dilema ambiental, a poluição do ar é também um problema de saúde humana, como encara a própria Organização Mundial da Saúde. Estima-se que, no mundo inteiro, três milhões de pessoas morram prematuramente a cada ano vítimas da poluição do ar. No Reino Unido, esse número chega a 40 mil. As implicações médicas são semelhantes às do cigarro: infarto do miocárdio, derrame cerebral, pneumonia e perdas fetais.

No Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro representam uma série histórica de poluição do ar, que, apesar de ter registrado significativa diminuição nos índices, ainda está longe do ideal. Só na cidade de São Paulo, 4.500 pessoas morrem todos os anos em consequência disso, enquanto 7.500 mortes acontecem na Região Metropolitana e 15 mil em todo o estado.

De acordo com o médico patologista e pesquisador Paulo Saldiva, cada duas horas no trânsito de São Paulo equivale a um cigarro fumado. Isso porque, mesmo com a melhoria tecnológica na produção dos combustíveis, o trânsito ficou exponencialmente mais lento e, portanto, o indivíduo fica mais tempo exposto à grande quantidade de poluentes nos corredores de tráfego.

A diminuição de veículos a combustíveis fósseis levaria também a uma migração para bicicletas e caminhadas, influenciando positivamente a saúde da população. “O ser humano vai virar pedestre, caminhando mais, o que leva a uma queda significativa nos riscos de doenças mentais, cardíacas e osteoporose, além de controlar melhor a diabetes e a pressão”, explicou Saldiva.

Segundo ele, cada pessoa tem um limite diferente para os poluentes. “Algumas pessoas podem ser frágeis o suficiente para serem afetadas pelos níveis de poluição permitidos pela legislação. Cada corpo é diferente, cada um tem o seu limite de segurança. É como fumar e conviver com fumantes”, explica.

O médico acadêmico explica ainda que não há um mínimo “suportável” para a poluição, já que quanto melhor, melhor. No entanto, romantizar níveis iguais à zero é fantasiar uma realidade utópica, já que existem inúmeros processos naturais que também são responsáveis por isso.

 

PASSADO

Os relatos de baixa qualidade do ar em Londres datam desde a Idade Média. Até nos filmes antigos, é possível ver a cidade esfumaçada nas cenas noturnas. No dia 5 de dezembro de 1952, a história da capital inglesa ficou manchada para o resto do mundo. Literalmente. Um nevoeiro de poluição, que matou mais de 10 mil pessoas, assustou não só a população, mas também autoridades.

Conhecido como o Grande Nevoeiro de Londres, o fenômeno não causou pânico a princípio, já que Londres é famosa mundialmente pelos seus já corriqueiros nevoeiros. No entanto, o mau cheiro, cor do ar e baixa visibilidade levaram a população a um estado de tortura que durou cinco dias.

Quando o nevoeiro se dissipou no dia 9 de dezembro, Londres, que era a capital do mundo na época, registrou altíssima taxa de mortalidade. Estima-se que 12 mil homens, mulheres e crianças tenham morrido em duas semanas devido à exposição ao ar poluído.

O tratamento para o problema não é simples. Como não há uma estação de tratamento de ar (como existe de água e esgoto, por exemplo), a única opção é impedir que a poluição aumente. Anos depois do desastre de 1952, portanto, foi promulgada a lei de regulação da poluição.

Para informações sobre as emissões em São Paulo em tempo real, acesse:

http://emissoes.energiaeambiente.org.br/ e http://qualidadedoar.org.br/

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Sobre o Colunista:

Priscilla Castro

Priscilla é jornalista, brasiliense de sangue e potiguar de coração. Apaixonada por escrever e viajar, se formou em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 2008 e, desde então, trabalhou como repórter, editora e produtora de TV e jornal impresso. Depois de morar em seis países e estudar cinco línguas, partiu para a Rússia para cursar um mestrado em Jornalismo Internacional. O bom e velho vinho a ajuda a fugir do assombroso inverno russo.

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