{"id":10808,"date":"2016-11-04T17:33:11","date_gmt":"2016-11-04T17:33:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.bbmag.co.uk\/pt-br\/?p=10808"},"modified":"2017-09-26T21:07:25","modified_gmt":"2017-09-26T20:07:25","slug":"som-da-periferia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.bbmag.co.uk\/pt-br\/som-da-periferia\/","title":{"rendered":"Cultura-M\u00fasica: O som da periferia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Cultura-M\u00fasica: O som da periferia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A nova leva de artistas tem provocado atualiza\u00e7\u00f5es na gest\u00e3o da carreira dos seus pr\u00f3prios mentores<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independ\u00eancia sempre foi um valor inerente \u00e0 cena do rap brasileiro, que alcan\u00e7ou o seu p\u00fablico sem apoio da grande m\u00eddia ou da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. Um dos maiores grupos, o Racionais MC\u2019s, vendeu mais de um milh\u00e3o de c\u00f3pias do seu \u00e1lbum <em>Sobrevivendo no Inferno<\/em>, produzido de maneira completamente independente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mudan\u00e7as sociais da \u00faltima d\u00e9cada impactaram positivamente todo o funcionamento do rap brasileiro, desde a din\u00e2mica do mercado at\u00e9 as formas de administra\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o. Da mesma forma que os rappers pioneiros influenciaram toda uma gera\u00e7\u00e3o posterior, a nova leva de artistas tem provocado atualiza\u00e7\u00f5es na gest\u00e3o da carreira dos seus pr\u00f3prios mentores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Influenciados pelo sucesso de empresas como o Laborat\u00f3rio Fantasma, de Emicida, o ConeCrew Diretoria ou a organiza\u00e7\u00e3o VVAR, rappers consolidados como o Racionais MC\u2019s e Dexter (ex-509E) estabeleceram suas pr\u00f3prias ag\u00eancias para gerenciar os seus direitos, vender mercadorias e shows, e tamb\u00e9m para administrar as carreiras de outros artistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acesso \u00e0 tecnologia, a melhoria da condi\u00e7\u00e3o financeira nos sub\u00farbios e o decl\u00ednio dos modelos convencionais de produ\u00e7\u00e3o musical dominado pelas grandes gravadoras criaram um cen\u00e1rio favor\u00e1vel para o g\u00eanero, semelhante ao que ocorreu com o rap norte-americano nos anos 1990 com a ascens\u00e3o de gravadoras como Death Row, No Limit e Roc-A-Fella.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aliada a essa conjuntura, a nova MPB \u2013 <em>M\u00fasica Perif\u00e9rica Brasileira<\/em>, conforme nomeia Sombra, ex-membro do grupo SNJ \u2013 encontrou um espa\u00e7o aberto por fatores como a estagna\u00e7\u00e3o de outros g\u00eaneros como o rock e a MPB tradicional, ainda dominados por artistas mais velhos que alcan\u00e7aram a fama entre os anos 1970 e 1990 e o momento atual do r\u00e1dio, dominado pela m\u00fasica <em>sertaneja<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento hip hop, junto com o <em>break dancing<\/em> e o <em>graffiti<\/em>, chegou ao Brasil principalmente por S\u00e3o Paulo, apenas alguns anos ap\u00f3s ter come\u00e7ado nos Estados Unidos na d\u00e9cada de 1980. A onda come\u00e7ou com DJs locais e lojas de discos da Galeria do Rock, no centro da cidade, na \u00e9poca dividindo a \u00e1rea com o movimento punk, mas logo se mudando para a esta\u00e7\u00e3o S\u00e3o Bento do metr\u00f4, onde dan\u00e7arinos de break e rappers praticavam suas habilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As primeiras grava\u00e7\u00f5es de rap brasileiro foram, em 1988, na compila\u00e7\u00e3o <em>Hip Hop Cultura de Rua<\/em> (Eldorado). A obra continha faixas de Tha\u00edde e DJ Hum (produzidos por Nasi e Andr\u00e9 Jung, do grupo de rock <em>Ira!<\/em>), MC Jack, C\u00f3digo 13, entre outros. Houve algumas tentativas anteriores de incorpora\u00e7\u00e3o do rap \u2013 como K\u00e1tia Fl\u00e1via, gravada por Fausto Fawcett e Rob\u00f4s Ef\u00eameros. O <em>scratch<\/em> tamb\u00e9m havia sido usado em 1987 pela banda Gueto, de S\u00e3o Paulo, no seu \u00e1lbum <em>Esta\u00e7\u00e3o Primavera<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1988, a gravadora Zimbabwe lan\u00e7ou a compila\u00e7\u00e3o <em>Consci\u00eancia Black<\/em>, que apresentou duas faixas dos Racionais MCs \u2013 <em>P\u00e2nico na Zona Sul<\/em> e <em>Tempos Dif\u00edceis<\/em>. No in\u00edcio dos anos 90, Tha\u00edde, DJ Hum e os Racionais foram reconhecidos como os mais importantes nomes na cena de S\u00e3o Paulo, regularmente envolvidos em projetos sociais de promo\u00e7\u00e3o do movimento hip hop no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro, Gabriel Contino, conhecido como Gabriel O Pensador, fez sucesso em 1992 com a m\u00fasica <em>T\u00f4 Feliz,<\/em> <em>Matei o Presidente, <\/em>escrita sobre Fernando Collor, que havia acabado de renunciar \u00e0 Presid\u00eancia em meio a um processo de impeachment por corrup\u00e7\u00e3o. O hit foi seguido por <em>L\u00f4raburra<\/em> e <em>Retrato de um Playboy<\/em>, que, apesar da sonoridade pop, apresentou forte letra de cr\u00edtica a aspectos da cultura local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, o rap se espalhava pelo resto do Brasil com artistas como C\u00e2mbio Negro e GOG (de Bras\u00edlia), Faces do Sub\u00farbio, Chico Science e Sistema X (do Recife), Da Guedes e Pi\u00e1 (Porto Alegre) e Black Soul (Belo Horizonte). No fim da d\u00e9cada, o rap fez as primeiras fus\u00f5es com o rock atrav\u00e9s de grupos como o Planet Hemp (com Marcelo D2) e Pavilh\u00e3o 9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto alto do movimento foi o lan\u00e7amento de <em>Sobrevivendo no Inferno<\/em>, dos Racionais MC\u2019s, o grande cl\u00e1ssico do rap brasileiro, que inclu\u00eda a faixa <em>Di\u00e1rio de um Detento<\/em>. O sucesso do \u00e1lbum abriu as portas para um movimento nacional do g\u00eanero, com grandes gravadoras contratando muitos dos nomes da cena local no final dos anos 90. Marcelo D2 lan\u00e7ou o seu primeiro \u00e1lbum solo, <em>Eu Tiro \u00c9 Onda<\/em> (1998), seguido de <em>\u00c0 Procura da Batida Perfeita<\/em>, que mixou o rap com o samba. No Recife, a banda Faces do Sub\u00farbio se concentrou na <em>embolada<\/em>, uma vers\u00e3o regional do rap. S\u00e3o Paulo, no entanto, continuou sendo o grande centro de produ\u00e7\u00e3o de rap. De l\u00e1 vieram nomes como DMN, De Menos\u00a0Crime, Z\u2019\u00c1frica Brasil, RZO, Criminal D, Mzuri Sana, 509-E, Somos N\u00f3s A\u00a0Justi\u00e7a, Detentos do Rap, Pepeu e\u00a0Sabotage.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais recentemente, uma nova gera\u00e7\u00e3o de rappers emergiu em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Cear\u00e1, Pernambuco, Paran\u00e1,\u00a0Bras\u00edlia, Bahia,\u00a0Goi\u00e1s, Par\u00e1, Rio Grande do Norte e Para\u00edba, mixando o hip hop com outros ritmos, g\u00eaneros e sons. O rap brasileiro agora abrange o jazz o samba,\u00a0o funk,\u00a0o soul, o forr\u00f3, o repente, o reggae, a bossa nova, o brega e a m\u00fasica eletr\u00f4nica. A participa\u00e7\u00e3o de mulheres como Negra Li, Lurdez da Luz,\u00a0Karol Conk\u00e1, L\u00edvia Cruz\u00a0e Flora Matos abriu caminho para novas protagonistas e novas ideias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se entre os anos 1980 e 1990 o rap focava nas profundas desigualdades nacionais, a viol\u00eancia nas comunidades da periferia e no persistente racismo, a partir dos anos 2000 a ascens\u00e3o econ\u00f4mica das classes mais baixas aprimorou o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da internet, trazendo novos temas e ideias para artistas como Parteum, Criolo, Rael, Fl\u00e1vio Renegado,\u00a0Rashid, Don L, Amiri, O Quadro, ConeCrew Diretoria,\u00a0Rincon Sapi\u00eancia, S\u00edntese,\u00a0B, Neg\u00e3o, Emicida e outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A companhia dirigida pelos irm\u00e3os Evandro Fi\u00f3ti e Emicida desde 2008, Laborat\u00f3rio Fantasma, \u00e9 um exemplo fundamental de como a distribui\u00e7\u00e3o de riqueza e poder \u2013 focada no topo da pir\u00e2mide (tanto na sociedade quanto na ind\u00fastria de m\u00fasica local) \u2013 pode alcan\u00e7ar a periferia e possibilitar ao movimento rap ocupar novos espa\u00e7os, se desenvolvendo n\u00e3o apenas como uma express\u00e3o cultural, mas como um modelo de neg\u00f3cio que gera emprego e renda para jovens das periferias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A apari\u00e7\u00e3o do Emicida tamb\u00e9m foi um divisor de \u00e1guas refrescante no cen\u00e1rio da m\u00fasica contempor\u00e2nea. O paulistano foi um dos primeiros rappers a se livrar do peso est\u00e9tico e politico exercido pelos Racionais MC\u2019s por mais de 20 anos. Seguindo a tend\u00eancia, na edi\u00e7\u00e3o de novembro de 2013 da revista Rolling Stone Brasil, os pr\u00f3prios Racionais apareceram vestindo modernas jaquetas e gravatas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um pa\u00eds que se refere aos seus letristas como poetas e intelectuais, mas por mais libertadora que a mudan\u00e7a seja, para muitos ainda \u00e9 um desafio aceitar que uma pobre crian\u00e7a negra da periferia esteja continuando uma linha que previamente pertenceu a Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de tudo isso, Emicida tem protagonizado tamb\u00e9m a melhoria do padr\u00e3o das produ\u00e7\u00f5es profissionais para a ind\u00fastria de rap local (muitas grandes faixas do passado foram realizadas com limitadas t\u00e9cnicas de grava\u00e7\u00e3o), assim como uma maior participa\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos e performances, em vez de focar somente nos <em>samples<\/em>. O rapper tem se destacado ainda pela revolu\u00e7\u00e3o na qualidade da produ\u00e7\u00e3o de videoclipes. Tal fato tem sido facilitado, em grande medida, pelo patroc\u00ednio de grandes empresas, que t\u00eam aproveitado incentivos fiscais para investir em uma variedade de atividades culturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente algum jovem diretor j\u00e1 deve estar pensando em um roteiro para levar a trajet\u00f3ria de Emicida para o cinema. Em 2007, o paulistano estava se apresentando para 50 pessoas em um clube local em Santo Andr\u00e9. Em 2009 ele j\u00e1 tinha tr\u00eas indica\u00e7\u00f5es para o VMB \u2013 Brazilian Music Video Awards e, desde 2011, tem feito turn\u00eas pelos Estados Unidos e Europa, tendo se apresentado na Womex, em 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Emicida emergiu da cena de rap de improviso do sub\u00farbio de S\u00e3o Paulo e vendeu muitas fitas com suas pr\u00f3prias m\u00e3os antes de alcan\u00e7ar a fama. No ano passado, ele lan\u00e7ou o seu segundo \u00e1lbum de est\u00fadio: <em>Sobre Crian\u00e7as, Quadris, Pesadelos e Li\u00e7\u00f5es de Casa.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura-M\u00fasica: O som da periferia: A nova leva de artistas tem provocado atualiza\u00e7\u00f5es na gest\u00e3o da carreira dos seus pr\u00f3prios mentores Independ\u00eancia sempre foi um valor inerente \u00e0 cena do rap brasileiro, que alcan\u00e7ou o seu p\u00fablico sem apoio da grande m\u00eddia ou da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. 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