LGBT: As Olimpíadas mais LGBT de todos os tempos

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A Rio 2016 ficou mundialmente conhecida como as Olimpíadas mais LGBT de todos os tempos. O mundo presenciou inúmeros fatos que comprovam isso. Foi logo no percurso da tocha olímpica pelo país que surgiram as primeiras manifestações do orgulho LGBT brasileiro, que a cada dia se afirma com mais coragem e entusiasmo. Tivemos transgêneros no revezamento da tocha e na condução da delegação brasileira na cerimônia de abertura. Teve beijo gay também no revezamento da tocha. Inúmeros agradecimentos e declarações de atletas aos seus companheiros e companheiras de mesmo sexo. E, por fim, o histórico pedido de casamento de uma das voluntárias à jogadora da equipe brasileira de rúgbi.

Isto significou um verdadeiro contrataste com os últimos Jogos de Inverno que ocorreram na Rússia, em 2014, marcados por grandes polêmicas em torno das absurdas leis russas que criminalizam LGBTs. Naquele país, qualquer pessoa (inclusive visitantes e atletas de outros países) pode ser presa por manifestar sua orientação sexual ou identidade de gênero. Elas são enquadradas no “crime de propaganda homossexual”.

Definitivamente o Rio de Janeiro ganhou mais um fato para coroar seu status de cidade “gay friendly”. O lugar onde todos e todas podem celebrar de maneira democrática a diversidade e a pluralidade dos povos. Realmente o “espírito olímpico” cumpre essa tarefa de promover a tolerância e o respeito ao diferente.

O Rio é considerado um dos melhores destinos turísticos no mundo para a população LGBT. Há uma combinação de praias, paisagens, rede de comércio e festas que são muito receptivas a nós. Somado a isso, todos os anos protagonizamos uma das mais importantes paradas LGBTs da América Latina, além de termos como representante do Rio de Janeiro o único parlamentar federal assumidamente gay, o que reforça a identidade LGBT da cidade.

Muitas coisas ainda motivam a seguir vivendo e assumindo nossas identidades e orientações aqui no nosso país e no Rio. Não posso deixar de mencionar que foi aqui, nas praias cariocas, que encontrei o grande amor da minha vida, e que muitas outras histórias parecidas foram protagonizadas neste palco. É aqui que vivo com ele há onze anos e tentamos mostrar para todo mundo que nosso amor é algo natural e maravilhoso e que devemos ter o respeito que merece qualquer outro relacionamento heteronormativo.

Aos poucos e ainda muito timidamente, a sociedade vem aprendendo a nos respeitar. Temos encontrado cada vez mais forças nos nossos laços de amizade e companheirismo. Na solidariedade uns com os outros, na ajuda mútua quando estamos passando por momentos difíceis e nos espaços de celebração e comemoração dos nossos laços afetivos.

No Rio temos inúmeros espaços de encontro e diversão para os nossos, e cada vez mais eles pipocam e se firmam como lugares de resistência e afirmação das nossas identidades. Na Zona Norte ou na Zona Sul, passando pela Zona Oeste da cidade, há muitos eventos e festas em que a diversidade e o respeito imperam, onde nos sentimos seguros para sermos quem nós realmente somos.

Enfim, há muito a se fazer para que o nosso espaço seja conquistado em todos os cantos da cidade. Ainda temos que enfrentar inúmeras barreiras para conseguir um trabalho, ou para sair na rua em paz, para ir ao cinema ou ao mercado sem ser desrespeitado. Mas sinto que cada vez mais estes espaços estão sendo conquistados por nós. Alguns personagens corajosos, como os que protagonizaram as Olimpíadas, souberam utilizar seus espaços na mídia para representar os milhões de LGBTs espalhados pelo país, que fazem das suas vidas e do seu dia-a-dia a verdadeira resistência para que um dia possamos simplesmente amar e sermos amados nessa cidade que é maravilhosa, mas que ainda é para poucos.

David Michael Miranda é carioca e militante político dos direitos LGBT.

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Sobre o Colunista:

David Michael Miranda

David Michael Miranda é carioca, jornalista e fundador da Casa da Juventude, local de produção cultural na Pedra do Sal. É casado com o também jornalista Glenn Greenwald há 11 anos. Foi impulsionador das campanhas por asilo a Edward Snowden no Brasil e contra o desmonte do programa SOS Rio Sem Homofobia. Recentemente apresentou o Tratado Snowden, um tratado internacional contra vigilância em massa na rede e foi lançado pelo Coletivo Juntos como candidato a vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro.

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