Carnaval Brasileiro e a Ala LGBT!

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É dito que antigamente, os egípcios faziam enormes festas para a rainha e deusa egípcia Isis, que simbolizava a terra, a natureza e a agricultura. Durante as festas desfilavam cortejos de carros enfeitados com flores, marcando assim o início da primavera.
Ao longo do tempo, os gregos e romanos começaram também a cultuar a deusa Isis e a festejar. Diz-se que ao final do cortejo, o último carro era dirigido às águas e posto a flutuar e, pela sua semelhança a um navio, foi dado a ele o nome de “Carrus Navalis” que mais tarde se transformou em “Carnavalis”, ou  Carnaval.
Com o decorrer do tempo este ritual foi introduzido em quase toda a Europa, principalmente em Portugal e Espanha, atingindo grande brilho, sobretudo quando do domínio árabe.

O carnaval chegou ao Brasil, através dos  portugueses, mas se tornou esse cenário exuberante nos desfiles das Escolas de Samba de hoje, devido à influência dos habitantes escravos, trazidos da África.

Essa influência é visível, por exemplo, nas alas das baianas, com seus belíssimos trajes que vão desde vestidos rendados até os seus magníficos turbantes e colares reluzentes. É visto  também nas avenidas, nas fantasias que representam e prestigiam “Orixás” religiosos de cultos como o candomblé, a umbanda, e de várias outras irmandades religiosas, também de origens africanas.
Sem dúvida alguma o carnaval brasileiro festejado com maior  animação é no Rio de Janeiro, onde a alegria atinge seu apogeu nos tradicionais desfiles das Escolas de Samba. Mas não podemos esquecer que é nas ruas de todo o país que o povo participa, dançando e cantando músicas de ritmos carnavalescos, ilustrando assim, o maior show do Brasil.
Vale a pena enfatizar, que os desfiles das Escolas de Samba, sempre contaram com um número muito grande de participantes LGBT, exibindo suas maravilhosas, ousadas e excêntricas fantasias, encantando a multidão na avenida, incluindo celebridades como a inesquecível e encantadora Roberta Close. Ela foi a primeira modelo “trans” a posar nua para a edição brasileira da revista Playboy e que em 1989, após anos de consultas com psiquiatras  e psicólogos, realizou seu sonho:  fazer a cirurgia de readequação de sexo, que aconteceu em Londres. Até hoje é fotografada circulando pelo Rio de Janeiro. Lembre-se também de nomes de pessoas famosas que, infelizmente já falecidas, deixaram grande legado na história do carnaval brasileiro:  Clovis Bornay, museólogo, ícone do carnaval carioca e idealizador do Baile de Gala do Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1937; a maquiadora, atriz e transformista “Rogéria” e também o conhecido estilista, figurinista e apresentador de TV, Clodovil, que muito contribuiu para o carnaval brasileiro.
Este ano, entretanto foi em São Paulo, na Império de Casa Verde, que a Escola disse não à “LGBTfobia”  (Carnaval é alegria, diga não à LGBTfobia). Como parte do Projeto “São Paulo com Respeito”, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania a plateia chegou ao delírio ao assistir a uma ala inteira da Escola  repleta de plumas, paetês e muitas purpurinas,  composta somente de  participantes LGBT (Ala da Diversidade). Eles retrataram com dignidade e orgulho,  sua difícil jornada na conquista de seus direitos de igualdade dentro da sociedade e sua luta contra o preconceito à orientação sexual de gênero. Tudo isso aconteceu ao longo de uma eufórica avenida repleta de admiradores.
Foram três dias calorosos com animação, beleza e alegria geral, dentro deste espetáculo que é o maravilhoso carnaval brasileiro, único e que este ano, teve como campeãs as Escolas de Samba: Beija-Flor no Rio de Janeiro e Acadêmicos do Tatuapé em São Paulo.
Existe um longo caminho a ser percorrido e muitos obstáculos a serem transpostos, até que os direitos de igualdade LGBT sejam atingidos, porém, passo a passo, a comunidade avança com sabedoria e muita alegria, reivindicando seus direitos, dentro de uma sociedade democrática que gera este novo mundo.
Agradecimentos ao Brasil, ao mundo e ao Reino Unido, pela luta contra a LGBTfobia em geral e, como no refrão da música dos anos cinquenta da cantora Doris Day:  “Que Será, Será…”. Continuamos a esperar.

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Sobre o Colunista:

Ciro de Lima

Ciro de Lima é formado em Letras pela Universidade São Francisco - São Paulo. Vive na Inglaterra há mais de 20 anos, onde cursou Tradução/Intérprete no Goldsmiths College. Também produziu o jornal informativo "Minhoca" para a comunidade LGBT e Simpatizantes. Atualmente estuda Braille em Londres e acha este curso extremamente desafiante.

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