Samba, o ritmo que corre pelas veias de uma nação continental

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De origens seculares, míticas e religiosas, esta música representa, move e influencia todo o País

O Samba é o rio que flui através de música brasileira. É a riqueza da cultura negra que veio com os escravos da África. Ao longo do caminho, ele recebeu outras influências, mas ainda é uma das maiores manifestações da expressão negra no Brasil. Do samba-canção ao samba carnavalesco ou samba-enredo –, abraçando a bossa-nova, a música eletrônica, o hip hop e o funk carioca ao longo do caminho, o Samba é rico em ritmo, melodia, harmonia, dança e em suas letras. Também é extremamente diversificado em função de seu regionalismo e pela mistura de raças do Brasil. São ritmos que absorvem uma miríade de culturas que abrangem os últimos 500 anos de história, e que surgiram a partir da interação entre índios, europeus e africanos. Samba sempre foi uma expressão local. Em todo o Brasil, cada Estado, cada região, ainda tem a sua própria forma característica de samba. A música popular com belas melodias e letras, seja tocada em um violão apenas ou por toda uma escola de samba lotada, com dezenas de tambores, leva todos a dançar.

Da zona rural para as grandes cidades, a música é uma celebração da vida e da comunidade.

A manifestação mais pública do samba é o desfile das escolas do Rio de Janeiro. Em dois dias, quatorze escolas desfilam pelo Sambódromo carioca. Outras cidades sediam eventos semelhantes durante o Carnaval, mas o evento do Rio é único e imponente.

São quase onze meses de trabalho na produção do desfile. Cada escola de samba escolhe o tema de seu samba-enredo, para contar esta história na passarela durante 80 minutos. Geralmente, está relacionado a algum aspecto da história e da cultura brasileira. Cantado por toda a escola e acompanhado pela “bateria” – com o som de centenas de diferentes tambores, tamborins, surdos, agogôs, cuícas, reco-recos, entre outros instrumentos que perfazem uma orquestra de centenas de ritmistas, o objetivo da escola é impressionar o público e convencer o júri, que decidirá o vencedor baseado na canção, nos carros alegóricos, nas passistas, comissão de frente, na ala das baianas, nos figurinos, etc.

Raízes mais profundas do samba se encontram na cidade de Salvador, capital da Bahia, que foi a capital do Brasil nos tempos coloniais, e primeiro assentamento urbano do país. Em meados dos anos 1800, a província do Rio de Janeiro tinha uma população de mais de 300 mil escravos. Após a abolição da escravatura, em 1888, milhares de ex-escravos se mudaram da Bahia para o Rio em busca de emprego e ocuparam os bairros e encostas da cidade. As comunidades construídas sobre estas encostas ficaram conhecidas como “favelas”, quando os soldados que lutaram na Guerra de Canudos, na Bahia (1897), se estabeleceram na região. Favela era o nome de uma planta espinhosa que crescia no interior árido da Bahia.

Nas casas dos escravos libertados, aconteciam encontros informais, ciceroneados por baianas, sendo a mais famosa delas a Tia Ciata, que durante esses encontros fazia sessões de candomblé, seguidas de um samba. Era uma espécie de festa onde as pessoas podiam socializar.

Foi neste cenário que a mistura de diferentes influências musicais como a marcha, lundu, polca, habanera, maxixe e o tango produziu, pela primeira vez, um tipo de música que sugeriu que o ritmo do Samba.

Os melhores talentos musicais da época se reuniam na expectativa de tocar nas festas e nas sessões de capoeira e “batucada”. Acompanhados por instrumentos de percussão, tambores africanos ocidentais misturados com guitarras e cavaquinhos portugueses, os músicos criavam de improviso letras e versos, que eram repetidos pelos outros participantes.

A primeira escola de samba, chamada Deixa Falar, foi criada em 1928. Chamava-se “escola” por uma analogia com uma escola de formação, que ficava em frente. Diziam, “nós também ensinamos, mas aqui aprendemos o samba.” As escolas de samba começaram a crescer com a criação de duas outras que surgiram após a Deixa Falar: Mangueira e Portela.

Na década de 1930, a população branca (e os compositores brancos) começou a expressar algum interesse na música que estava vindo dos morros. Em 1930, o Samba embarcou naquela que foi conhecida como a Era de Ouro. Essa Era foi determinada pela mudança nas técnicas de gravação de mecânica para elétrica , dando ao intervalo, ao timbre e à expressão das vozes gravadas muito mais cor e força. O aparecimento e a rápida expansão do rádio foi outro motivo do crescimento desse interesse. Em 1939, começou uma nova fase musical, a do Samba-exaltação. Esta fase foi inaugurada com uma canção que se tornou a mais ouvida e executada música brasileira no exterior, Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, que se tornou um símbolo musical do Brasil em todo o mundo, por mais de 25 anos ininterruptos, até a chegada de Garota de Ipanema, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, nos anos 1960. Já o Samba de Gafieira ganhou destaque na década de 1940 e 1950, influenciado pelas orquestras de rádio dos Estados Unidos.

Na década de 1960, compositores de Bossa Nova e de MPB fizeram parcerias com a Velha Guarda, redescobrindo cantores e compositores veteranos, como Cartola e Nelson Cavaquinho, que acabaram voltando às paradas de sucesso. Eles foram seguidos por uma nova geração: Paulinho da Viola, Elton Medeiros e, logo depois, Martinho da Vila, junto com Clementina de Jesus, que fez sua estreia em 1964, quando já tinha 63 anos de idade.

Na década de 1970, novos nomes surgiram: João Nogueira, Paulo César Pinheiro, Candeia, Nelson Sargento e Monarco compuseram músicas para novos cantores de samba, incluindo Beth Carvalho, Alcione, Roberto Ribeiro e Clara Nunes.

Os anos 1980 e 1990 viram o enorme sucesso de outro tipo de Samba, o Pagode. Grupos como Fundo de Quintal e Raça Negra venderam centenas de milhares de álbuns, que inspiraram um retorno ao Samba de raiz e também influenciaram outros estilos musicais.

Aumenta o som!

Veja no YouTube alguns dos mais importantes e genuínos Sambas brasileiros:

Riachão – Cada macaco no seu galho

 

Cartola e seu Pai – O Mundo é um Moinho

 

Cartola – Preciso Me Encontrar

 

Chico Buarque – Apesar de Você

 

Diogo Nogueira – Com Que Roupa

 

Geraldo Filme – Vá cuidar de sua vida

 

Marcelo D2 – A Maldição do Samba

Surdo Tambor cilíndrico de grandes dimensões e som profundamente grave.
Agogô – Sino único ou múltiplo, tocado com uma baqueta de madeira.
Cuíca Semelhante a um tambor, com uma haste de madeira presa no centro da membrana de couro, pelo lado interno. O som é obtido friccionando a haste com um pedaço de tecido molhado e pressionando a parte externa da cuíca com dedo, produzindo um som de ronco característico. Quanto mais perto do centro da cuíca mais agudo será o som produzido.
Reco-reco Instrumentos de percussão feitos de um gomo de bambu seco com entalhes transversais, sobre os quais se esfrega uma vareta.
Comissão de Frente – O primeiro grupo de participantes de uma escola de samba, funciona como “mestre de cerimônias” saudando o público e apresentando a escola.
Ala das Baianas – Ala tradicional de uma escola de samba, geralmente com as mulheres mais idosas, que, em vez de sambar, fazem evoluções e rodopios.
Cavaquinho – Pequeno violão de quatro cordas de origem portuguesa.
Batucada – Ritmo brasileiro (marcado por instrumentos ou palmas e até em caixas de fósforos e mesas de bar).
Pagode – Estilo de samba, atualmente usado como sinônimo do mesmo.

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Sobre o Colunista:

David McLoughlin vive no Brasil há 20 anos, trabalhando na indústria da música local. Entre suas paixões estão cães e boas cervejas.